O RÁDIO: A VOZ DO INFINITO

“O rádio é a onipotência feita som. Outrora, os deuses falavam aos homens, do alto temeroso dos céus. Adão ouviu, muitas vezes, as advertências sapientíssimas do Padre Eterno. Júpiter, o pai dos deuses, falava através do trovão e era chamado, por isso, Júpiter Tonante...

Depois da Grécia, os deuses calaram-se. Ouviu-se no Mundo a voz roufenha das guerras, o estridor das armas em choques, o gemido dos moribundos... Na Idade Média, era o Demônio quem falava, através das velhas em cujo corpo se abrigava... Passou a Idade Média e o Diabo calou-se para sempre.

Veio a Renascença e as catedrais fizeram ouvir a voz sonora dos seus bronzes eternos. Depois, o Racionalismo, a Dúvida e a Máquina e logo se ouviu o “fon-fon” dos automóveis, a sirena das fábricas, o apito agudo das locomotivas... A Humanidade respirava através dos pulmões de aço das máquinas a vapor. Em seguida, a Eletricidade, o clarão de Edison, e, por fim, Marconi e o rádio!...

Quem descobriu, no mecanismo do universo, as ondas hertzianas, agarrou, de uma só vez, as rédeas de ouro do carro do infinito. Hertz e Branly são os santos da T. S. F. Marconi é um taumaturgo de paletó de saco.

Hoje, o rádio mete-nos, em casa, de graça quase, a Terra inteira, com o rumor das suas cidades, o cantar dos seus artistas, os versos dos seus poetas, todo o esplendor sonoro das suas conquistas e das suas arrancadas, dos seus protestos e das suas angústias.

Quem possui um aparelho de rádio é um dominador do mundo, um Alexandre, que não precisa sair de casa para tê-lo a seus pés, obediente e dócil... Depois de uma conferência sobre economia, o gorjeio de um pássaro; após a melodia da música, o canto grave de um pensamento...

Se o Criador viesse de novo ao mundo, não falaria, como Jeová, do alto de uma nuvem, ou como Júpiter, do corpo medonho de um trovão: falaria ao microfone!

A grande assombrosa vantagem do rádio é que é o mais aristocrático e o mais popular dos instrumentos de difusão, e tanto atinge um castelo feudal, na Inglaterra, como uma choça na Groenlândia, ou um bangalô na Virgínia, ou um coqueiro na África. Por toda a parte se insinua e filtra a voz das ondas de Hertz. Creio que os próprios defuntos se pudessem pediriam para repetir certa canção, esta valsa, aquela melodia...

Marco Aurélio reclamaria a palavra de Eisntein, o Infante Dom Henrique pediria notícias da velocidade dos transatlânticos, Carlos Magno se interessaria pela questão do desarmamento, Dom João VI reclamaria a sua perna de galinha assada...

O rádio é a ciência e a arte postas ao alcance de todas as almas. É a Civilização trocada em miúdos. É a onipotência do som, repartida por toda a face da Terra, vencendo a diversidade de climas e a divergência de idiomas, as provocações de uns e a arrogância de outros, a maldade de muitos e a preguiça de quase todos. Rádio! Última afirmação da Eternidade, mensagem sonora de um Deus que as nossas inteligências endentem e as nossas almas ansiosamente procuram...”

FONTE
“A Voz do Infinito”. Trecho da obra literária, Caminho de Damasco; livro de crônicas e fantasias do escritor Berilo Neves. (Civilização Brasileira, março de 1939). Palavras escritas em 1939 que, apesar da espantosa dimensão alcançada pelo sem-fio nos dias de hoje, não deixam de ser oportunas e verdadeiras.

Capítulo <-> “A Voz do Infinito”.
Preâmbulo do livro “Bastidores do Rádio/Fragmentos do rádio de ontem e de hoje”. Autor: Radialista Renato Murce. (Imago Editora Ltda, Rio de Janeiro, 1976).
Agradecimentos especiais as Editoras Civilização Brasileira, Imago Editora Ltda e aos amigos do rádio Berilo Neves e Renato Murce.







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